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viernes, 29 de mayo de 2009

O LIVRO BRASILEIRO E O LIVRO IMPORTADO NO MERCADO EDITORIAL



Por Luiz Carlos Amorim (escritor e editor – lc.amorim@ig.com.br )

Autores nacionais não conseguem publicar seus livros através de grandes (ou até de pequenas) editoras, as quais preferem os importados, que já vem com todo o material promocional no pacote, muita informação sobre a obra e índices de venda sempre muito bons em outros países.

Talvez a culpa não seja das editoras, que precisam vender o seu produto e por isso investem com mais segurança nos “sucessos” internacionais.

O fato de o brasileiro não comprar tanto livro quanto deveria, faz com que o mercado seja pequeno demais para que tanto os sucessos importados, já com referência e indicação garantidos, e os livros de novos autores brasileiros possam disputar em proporções pelo menos equivalentes, as chances de publicação. Já autores brasileiros consagrados não têm que se preocupar muito com isso, pois já têm seu público e vendem até pelo próprio nome.

Uma matéria interessante sobre a performance de escritores estrangeiros e nacionais no mercado editorial brasileiro foi publicada há pouco tempo em um grande jornal de circulação em todo o país. Foram entrevistados editores, livreiros, agentes literários, escritores e leitores e a conclusão a que o trabalho chegou foi que o sucesso de vendas dos livros importados não é a razão da falta de espaços nos prelos das editoras e nas prateleiras das livrarias para os novos bons escritores da terra. Alguns acham que a coisa está equilibrada, que o índice de livros estrangeiros já foi muito maior. Outros acham que o mercado é que é pequeno, constatação antiga. E outros, ainda, acham que a seleção é que está mais criteriosa, mais exigente, hoje em dia.

Há, ainda, a corrente a constatar que o mercado brasileiro é obrigado a consumir os livros didáticos e as apostilas e falta, então, recurso para comprar o chamado livro literário. É outra velha discussão, mas tem o seu sentido: o livro é caro – isso também foi discutido na série de reportagem, mas não houve uma conclusão definitiva, pois o editor continua achando que não, que o livro não é caro e o público leitor sente na pela o custo dele - então não há o que escolher: primeiro o livro escolar, que é preciso estudar, para que o nível de vida melhore e se possa, então, escolher que livro comprar.

Outro fato relevante levantado pela reportagem é o fato de que as reedições aconteceram em maior quantidade do que as publicações de títulos novos em anos recentes, o que evidencia a preferência das editoras em reeditar títulos já conhecidos e bem sucedidos ao invés de novos títulos, de retorno não garantido.

E os mesmos números levantados pela reportagem – que obteve apenas retorno ao pedido de dados de 151 livrarias, das mais de quinhentas consultadas - mostram estatística onde o número de exemplares de livros vendidos no ano de 2004, por exemplo, foi quatro vezes maior para livros nacionais, embora o número de títulos traduzidos tenha sido metade dos títulos brasileiros publicados naquele ano. Embora estes números não discriminem a quantidade de livros literários vendidos, englobando tudo o que foi publicado, ou seja, refere-se a obras gerais, o autor nacional leva vantagem, ainda que os títulos de traduzidos venham aumentando ano a ano. E as vendas também.

Não sei até que ponto estas estatísticas podem ser confiáveis, e a própria reportagem coloca essa dúvida: “O público prefere o produto made in Brasil. Será? Ou será preocupante que num país de 170 milhões de almas apenas menos da metade tenha comprado, em um ano, um livro não didático, nacional ou estrangeiro?”

Isso não muda, no entanto o fato de que o brasileiro ainda lê pouco – não porque não goste de ler, mas por não ter acesso à leitura, ao consumo de livros - isso foi muito bem discutido e esclarecido na reportagem e não é preciso repetir aqui o resultado, pois todos nós sabemos a razão.

Insistimos, novamente, no que já foi dito tantas vezes, em oportunidades diversas: para se vender mais livros em nosso país, o brasileiro precisa ter o hábito da leitura. E para que isso seja realidade, o leitor precisa conviver com o livro desde muito pequeno, desde antes de saber ler, em casa: a responsabilidade de colocar a criança em contato com o livro não é só da escola, isso precisa começar em casa, nos primeiros anos da criança.

E precisamos de mais bibliotecas: as municipais, as escolares, as de associações, de clubes, de empresas. Precisamos até das bibliotecas particulares, como bem disse minha amiga Irene Serra, pois conhecemos bons exemplos disso, de pessoas que acabaram transformando seus pequenos acervos em bibliotecas de bairros, de comunidades, pois aos livros que a gente tem vão se juntando outros, por doação, e o número de títulos vai aumentando.

E as bibliotecas precisam ser atualizadas e bem equipadas, sempre. Não há como chamar de biblioteca um lugar com alguns livros que permanecem os mesmos por anos, como a maioria das poucas bibliotecas que existem por aí, até as das universidades, com a eterna desculpa de que não há verba para comprar novos títulos. Ou então, um lugar onde se coloca um acervo de algumas centenas de livros e depois de algum tempo, não sobram mais do que dois ou três exemplares, como não é raro acontecer, fato constatado pela equipe que fez as matérias.

Há hegemonia de pelo menos um gênero no mercado editorial brasileiro: a literatura infanto-juvenil, que detém, segundo a matéria lida, cerca de noventa por cento das publicações. Torço pra que isso seja real, mas acho um pouco exagerado. Isso pode e deve significar que uma parte – esperemos que uma boa parte – dos leitores em formação estão tendo contato com livros. Isso talvez nos leve, no futuro, a ter um índice maior de leitura abrangendo outros gêneros. É claro que isso implicaria em mudanças estruturais na vida do brasileiro, principalmente do mais humilde, mas temos que nos mobilizar para exigir de nossos representantes no poder uma educação de melhor qualidade, mais bibliotecas e bibliotecas mais bem equipadas e qualificação de pessoal para trabalhar nessas bibliotecas. E espaço nos conteúdos programáticos do ensino de primeiro e segundo graus para os professores abordarem os autores da terra, que é assim que eles poderão ter seu trabalho conhecido e reconhecido, se tiverem valor.


Temos direito a tudo isso. Mas não podemos deixar tudo como está, pois estaremos compactuando com o descaso que faz com que não tenhamos condições de comprar mais livros.

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