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miércoles, 22 de abril de 2009

Poemas de Domi Chirongo (Mozambique)


TRANSPIRAÇÃO





Inspiração
há de sobra
na sombra
da tua alma,
imagina
ao fundo!
Deixa, musa
deixa eu avançar
deixa amar-te
loucamente
perdidamente
inspiração
há de sobra
na sombra
da tua alma
deixa transpirar-te
deixa esculpir
teu sorriso
e desenhar-me
brilhante
nas tuas imaculadas
entranhas
inspiração, amor
há de sobra
na sombra
da tua alma



MOZAMBIQUE

para um bom entendedor meia palavra basta

Ditado popular

Na terra onde nascí há uma porta. Por fora ficamos nós. Esperançados em içar uma bandeira. Edificar novo pensamento. Por dentro, um antro de víboras. Este, armado em astro, ainda demonstra a permanente escuridão. Escuridão da solidão, mais incompreensível que as riquezas da burguesia negra africana! Sim. Moçambique, as vezes, parece ilusão. Já repararam que a heroína representa Mozambique? Que a nossa marca, recém lançada, também? Que a figura da marca Mozambique se assemelha a uma vagina ou pode ser ânus! Será que é ânus? Qual Náutilus qual quê! Náutilus que a gente conhece não domina. Nunca dominou. Nas nossas águas fornicadas, navios vemos toda hora. Marines. Gendarmes. Outro luso. Mudo. Sujo. Quem muda? Muda. Mudemos. Aqui não basta saber. Tem que se convencer. Não basta dominar o código de estrada. É preciso dominar o código dos buracos. Há tantos, tantos e tantos nas estradas desta sobrevivência. Mas há um buraco. Aquele buraco não é buraco qualquer. Nele tantos estão. É um buraco enorme, mais velho que a nação e menos simpático. Parece povoado, mas não é povoado. É uma vala comum aquele buraco. Só Platão sabe o que representa.

Nós, que viemos da independência e crescemos dentro da liberdade, somos chamados a responsabilidade. Antes morrer fugindo que capturado. Che que o diga. Fingido? Não, amor. Minha poesia não é cobardia. Nunca será. Deixo sempre os lacaios colher o primeiro milho dos pardais. Ratos. Patos. Leões. Tubarões. Crocodilos. Baleias. Minhocas. Cobras. Cabritos. Outros ritos de iniciação. Que alimentam mais um. Mais um coração propenso a putaria. Pirataria na cobardia do dia a dia. Depois dizes que estou avariado! Muito obrigado. Digo e repito: Se me derem uma AKM, rebento-te a cabeça em dois tempos. Disse e volto a repisar: Se me derem uma AKM, rebento-te a cabeça em dois tempos. Rebento-te só para deliciar a alegria do teu sorriso na atmosfera ardente.

Afinal porquê demoramos a designar as coisas pelos seus legítimos nomes? Ratos. Patos. Leões. Tubarões. Crocodilos. Baleias. Minhocas. Cobras. Cabritos. Puxa! Neste sol infernal, ainda nos recusamos a dizer o que tem de ser dito? Não, amor. Não me calo. Falo. Canto. Escrevo. Declamo. Reclamo. Reivindico nesta via. Esta pátria não deve atrapalhar. Vamos trabalhar. Esta pátria também é minha. Esta é a minha pátria. Esta nação também é nossa. Este país não é só deles. Puxa, amor. Custa mudar de vez “Moçambique” para “Mozambique”? Ou custa decretar que a “República não mais popular de Moçambique” deixa de ser “República de Moçambique” e passa a “República Moçambicana”? Sim, falei. Se falhei é porque falei. Agora falas tu. Fala para que te possam ver, como dizia o Sócrates. Não o tuga, mas o arcáico. Aquele que não viu a arca da nação. Fala. Grita. Chora. Morde. Come. Bebe. Bebé que não chora não mama, diz o saber popular. Guerra popular ainda é paragem. Liberdade miragem. Khongolote é destino. A passos de camaleão: Tchere, tchere, tchere, caminha um eu que és tu. Kutcherenga. Tchere, tchere, tchere, como camaleão, mas sem mudar de cor. Tchere, tchere, tchere, passos piores que dos Wai-wai. Tche-re. Tche-re. Tche-re. Ku-tche-ren-ga, sem forças para gudjimar. Mesmo depois de gymar no mar gratuito. Ou na praia livre. Águas sujas. Sereias ausentes. Cólera presente. Eu cidadão. Tu cidadão. Então fala. Fala. Grita. Chora. Morde. Explode. Parte a loiça toda. Pra-ta-ta-ta-tá. Porém, oiça. Oiça, por favor. Oiça muito bem: Não ouse entrar naquele buraco. Mesmo que a porta esteja totalmente escancarada. Danificada até as entranhas. Escangalhada de facto. Não ouse entrar naquele buraco. Mesmo que a porta esteja completamente despida. Não ouse entrar nele.

GINGAÇÃO

Dama demais

ginga, ginga

ginga, gira

na sombra ginga

gira, ginga

até que sobra.

AmARTE

Quero

amar-te

diante

desta luz

lunar

fora

do marte

num’aldeia

de laranjeira

sem herói

nem mártir.

CAPA PRETA

Sou preto

sim, senhor

não tenho

nenhum

receio

em assumir

isso,

mas essa

bíblia

profana

juro-te

que não é

minha, amor

LINDA LUA!

Sou dos

poucos

neste mundo

que ainda

acredita

na beleza

da lua,

os outros?

Hummm...

neste mundo

sou dos

poucos

que dorme

com as cortinas

abertas

e a dada

altura

da madrugada

acorda

e deixa-se

apreciar

p’la mesma lua,

lua maravilhosa!

POEMA DA DEMISSÃO

Se ser

poeta

requer

passar noites

devorando

livros

escrevendo

descrevendo

um planeta

de viventes

inexistentes

enquanto

se permanece

no quarto

isolado

se masturbando

p’ra não dizer

orando

rezando...

se ser

poeta

passa

necessariamente

por abdicar

da vida,

então eu...

eu não quero...

não quero ser poeta.

RESPOSTA AO PEDIDO

Pediram-me

p’ra poetar

sobre política

e outros

assuntos sociais

tragam minha arma

pediram-me

p’ra falar

das injustiças...

fuzilamentos

clandestinos

reportagens

desencorajadas

destinos trocados

rajadas aos inocentes

tragam minha arma

pediram-me

p’ra dizer

a toda a gente

que Xiquelene 2

é possível

só requer

vontade

tragam minha arma

pediram-me

p’ra comentar

o epicentro Munhava

e arredores

bem como a dita banana

tragam minha arma

pediram-me

p’ra tecer algo

sobre o norte

e sobre esse

homem trabalhador

honesto enganado

e sem futuro

tragam minha arma

pediram-me

p’ra falar da mulher

a mulher vadia

trajada a majestade africana

bem ao jeito do sistema

talvés por isso

respeitada p’la sociedade

tragam minha arma

pediram-me

p’ra falar

do confrade

que assassina

outro confrade

e não assina...

e os familiares

desorientados...

ó meu Deus!

Tragam minha arma

pediram-me muita coisa

que não precisavam pedir,

pois é meu dever...

tragam minha arma.

DESTINO PATÉTICO

Me diz se és feliz?

Tens uma pátria

que já te cansaste

de a ter

uns pais

que não sabes

se algum dia

fizeram teste de

paternidade

uma namorada

que não te ama

e nunca fez

teste de seropositividade

dinheiro?

Anda sempre

bem longe de ti

me diz, compatriota

me diz se és feliz?

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